Havia uma Pedra
Fui acompanhar minha esposa à emergência e aproveitei para fazer um exame, devido a um desconforto causado por um pequeno cálculo renal que estava no meu ureter direito há pouco mais de dois meses.
Chegamos por volta das 6h. Dormimos pouco. Esperei minha esposa entrar antes de eu mesmo ir para a emergência do meu plano.
A sequência foi simples: triagem, consulta, exames de sangue, urina, ultrassom, tomografia.
Depois dos resultados, fui chamado a uma sala onde uma médica conversava à porta com outra, que havia iniciado meu atendimento. Até então, não desconfiei de nada. "Mudança de turno", pensei.
Quando ela entrou e começou a me perguntar novamente sobre o meu caso, enquanto digitava tudo com precisão no computador, eu estava preocupado com o carro estacionado do lado de fora.
Mas tudo mudou quando ela disse:
— Vou falar com o especialista em urologia e já te chamo para dizer se você precisará ser internado.
Perguntei na hora:
— Internado? Hoje?
— Agora.
Ali percebi que aquelas perguntas não eram rotina. Saí cambaleando em direção à sala de espera, onde minha esposa e minha filha aguardavam, ainda sem perceber a gravidade da situação.
Depois de algum tempo, fui chamado novamente e veio a confirmação: eu ficaria internado.
Despedi-me da minha família e segui a médica para um local onde só eu poderia entrar.
Fui levado a uma sala da emergência, onde conheci um enfermeiro chamado Alexandre. Ele percebeu, provavelmente pela forma como eu tremia de frio, que as coisas não estavam bem.
Foi extremamente gentil. Disse para eu não me preocupar, que eu estava no lugar certo.
O ambiente era absurdamente gelado. Parecia que, a qualquer momento, um pinguim poderia entrar no quarto pedindo um casaco.
Alexandre me cobriu com uma manta, colocou o acesso no meu braço, mediu minha pressão, fez tudo o que alguém naquela situação precisa, antes de sair para atender algum chamado.
Fiquei sozinho.
Almocei. Esperei.
O médico chegou por volta das 15h, explicou o procedimento, tirou minhas dúvidas. Ao saber que eu havia comido há pouco tempo, disse que a cirurgia teria que ser mais tarde.
Paradoxalmente, depois de ouvir isso, tudo aconteceu rápido.
Deitei no leito que havia no quarto e já fui chamado para vestir o avental. Fiquei sentado, esperando o maqueiro.
Pelas minhas contas posteriores, entre deitar e esperar, levou três horas. Mas naquele momento parecia que eu tinha piscado os olhos.
Para quem nunca passou por isso: é difícil.
Ser levado por um hospital, deitado numa maca, quase nu, em silêncio, entre pessoas desconhecidas, indo para um lugar desconhecido, onde mexerão em algo íntimo do seu corpo.
Tudo isso num dia em que você não esperava nada disso.
Acho que, mesmo se soubesse, não faria muita diferença.
No caminho, Alexandre comentou como o hospital estava vazio, e relembrou seus anos em um hospital público, onde era comum ver pessoas em estados muito mais graves, queimaduras, cortes, fraturas expostas.
Eu sabia disso.
Sabia que, em comparação, o meu caso era leve.
Mas, ainda assim, era assustador.
Na sala onde cheguei, conheci minha anestesista. Uma médica simpática, que sorria com os olhos.
A forma como ela conduziu aquele momento tornou tudo, dentro do possível, mais leve.
E talvez ela nunca saiba disso.
Mas qualquer gesto humano importa.
Faz diferença.
Perguntei quando começaria.
— Agora.
Tive a impressão de que, quando você descobre algo, isso já passou. E, de repente, eu já estava sendo removido para outro lugar.
Fui levado a outra sala. Em minha ingenuidade, achei que meu procedimento pudesse ser bem reservado, talvez com três pessoas. Naquele breve instante, só tive tempo de ver um quadro com meus dados. E gente entrando, se preparando.
A anestesista me perguntou algo sobre me sentir entorpecido. Então perguntei quando seria a anestesia. Ela respondeu:
— Agora.
Acordei em uma sala de recuperação, com uma dor que nunca havia sentido. Uma pontada constante na barriga.
Para mim, aquilo não era "recuperação pós-cirúrgica".
A sala deveria se chamar "tortura pós-cirúrgica".
Expliquei a dor. Lembro claramente da anestesista se abaixar para ouvir meu relato com toda a atenção. Recebi medicação. Apaguei novamente.
Depois, o quarto.
Eram cerca de 3h quando recuperei a consciência plena.
A história não termina aqui. Houve outros detalhes, outros desdobramentos.
Mas escrevo isso como homenagem.
Ao Alexandre, que me cobriu enquanto eu tremia.
À anestesista que sorria com os olhos, e cujo nome infelizmente não lembro.
Ao médico que me atendeu.
Ao maqueiro.
A todos que, naquele dia, fizeram com que a pedra fosse apenas uma pedra.
Don Juan
Caro leitor, volto à sua presença para apresentar com eloquência minha opinião sobre fatos relevantes ocorridos em nosso mundo artístico e literário.
Trata-se da ilustre e enigmática figura Don Giovanni, conforme a perspectiva de seus admiradores.
Como sabemos, a figura de Don Giovanni, ou Don Juan (como é mais comumente chamado em sua versão espanhola), evoca um nobre espanhol, sensual e instintivo, que se destacou por seu comportamento indisciplinado, especialmente no período do Barroco. Várias obras, como Le Festin de Pierre (1665), de Molière, e El Burlador de Sevilla (1630), de Tirso de Molina, entre outras, se baseiam nesse icônico e irreverente personagem, cujas ações e características continuam a ressoar através dos séculos.
Cem anos depois, esse devasso personagem retorna à cena, desta vez vivificado pelo brilhante gênio Wolfgang Amadeus Mozart, com a cumplicidade do librettista italiano Lorenzo da Ponte (ex-sacerdote, exonerado de suas funções por má conduta religiosa, libertinagem e indisciplina). Da Ponte, apaixonado pela filosofia de Rousseau e amigo de Giacomo Casanova, conquistou fama ao trabalhar com Mozart, criando As Bodas de Fígaro, Cosi fan tutte e Don Giovanni. Ao escrever uma carta a um amigo, ele afirmou: "A poesia deve ser filha obediente da música."
Devo acrescentar em meu depoimento que a diferença entre as denominações Don Juan e Don Giovanni é significativa. Embora o primeiro seja de origem espanhola, foi o segundo, com a obra de Mozart, que se projetou de maneira definitiva, tornando-se uma das mais célebres e complexas óperas, misturando elementos de comédia e drama, além de ser uma das maiores conquistas da ópera clássica. O libreto de Don Giovanni, criado por Da Ponte, em italiano, alcançou um prestígio internacional, e é por meio deste idioma que a obra encontrou seu maior reconhecimento.
Convém lembrar que, durante a criação desta obra, Mozart sofreu profundamente com a morte de Leopold Mozart, seu pai, a quem venerava calorosamente. Esse evento afetou sua estrutura psicológica e, indiretamente, o processo criativo da obra, embora Don Giovanni já estivesse em andamento quando isso ocorreu.
No entanto, em 1822, o grande músico e compositor de óperas Charles Gounod, profundo conhecedor de Bach e Mozart, saiu em defesa de Mozart com o seguinte pronunciamento:
"A expressão é sempre tão perfeita em Mozart e completamente justa que sua frase musical revela até o próprio gesto, até a atitude, do personagem que deve fazer falar. A frase é realmente o retrato, a forma interior e exterior desse personagem."
Por fim, quero afirmar que a genialidade de figuras como Don Giovanni, em suas várias encarnações, transcende o tempo e continua a inspirar, provocando reflexão e admiração. A capacidade de uma obra de arte, como a de Mozart, de capturar a essência de um personagem tão complexo e, ao mesmo tempo, universal, reflete a eterna busca do ser humano por entender a si e o mundo ao seu redor. É esse poder da arte – de transformar, questionar e iluminar – que devemos sempre valorizar, independentemente das eras ou das convenções que moldam nosso olhar sobre o passado.